domingo, 30 de julho de 2017

"Fábulas Ancestrais" Número 1 - Abnegação e submissão


"Fábulas Ancestrais"

Número 1 - Abnegação e submissão

Ali, bem próximo ao rio Biongo Azul, nas terras altas de Zuinga, onde o clima é Sul, e a humidade faz espessa a bruma, espreitam os espíritos da floresta de Varlagaris.
   Os espíritos que assustam as criaturas ao Sul surgem com a Lua. E a Lua é a senhora dos nus, das copas altas a terra em suma os que aproveitam do convívio em Varlagaris.
   Os espíritos assustam aqueles que merecem. Os que relutam, e do grupo só tiram vantagem. Essa é o ambiente da história de Pororos, o cão, e Jamoros, o gato.
   - Pororos, o tolo, saltitante para lá, feliz para cá, com o rabo a abanar - era Jamoros a profanar.
   - Por que sou eu o tolo? - Indagou Pororos.
   - Oras, como não seria um tolo aquele que vive pelos outros? Que legado deixa o abnegado? O altruísta não é um tipo de artista?
   - Por que o altruísta é um artista? – Quis saber o cão Sulista.
   - Porque o artista, em seu dia-a-dia sem propósito, só entrega ilusão e o altruísta, em seu dia-a-dia abnegado, só recebe ilusão. O primeiro engana porque é pago, o segundo paga por ser enganado.
   - Tu Jamoros, ao confundir abnegação, que só pode vir da retidão, com submissão, que vem da vontade que reprime, demonstra ser o gato que todos dizem ser infame. É difícil explicar o prazer de servir ao próximo a alguém que é escravo de si ao máximo.
   - Sou escravo? – Pôs-se a rir Jamoros - Pois afirmo que sou livre. Livre para vir e sair daqui quando bem quiser e pegar o que desejar na hora que bem me apuser. Já tu deves obedecer. Obedecer aos horários, obedecer aos chefes, obedecer aos "espíritos". O que é essa liberdade que limita suas vontades?
   - Não fiquemos nesse diálogo infindável seu diabo incansável, pois eternos as regras, os horários e os chefes não são e nem impostos, pois quando as vontades desequilibram os que são comuns soçobram e novidades do coletivo emanam. Isto posto, tenho um desafio para ti.
   - Um desafio? – Disse Jamoros a coçar o focinho e ajeitar os bigodes - Hum, faça!
   - Próximo é o inverno Jamoros, acumular mantimentos, eu e todos os "tolos", é o que nos pusemos a fazer. Superar o tempo requer tempo. Eu o desafio, em nome da liberdade que apregoas ser a verdade, a fazer no frio o mesmo que muitos, mas sozinho.
   - Sou mais que um chefe, sei enganar, tenho malícia e faço com que outros me sirvam.
   - Não em Varlagaris, aqui os espíritos já informaram tua fama de vigarice!
   Jamoros partiu, mantendo a soberba, tomando Pororos por palerma, mas afirmando que o desafio assentiu. O cão, ao final, conseguiu os mantimentos reunir. Naquele inverno, muitos amigos pereceram, pois, aquele frio os espíritos recrudesceram. A essência do grupo ao tempo superou, pois, a abnegação do cão e de outros como ele imperou.
   Sobre Jamoros, até os dias de hoje, nenhuma notícia chegou. Os milênios passaram e ninguém sobre suas histórias soube contar, ou afirmar se enganar conseguiu, sua forma aproveitadora e maliciosa de relacionar.
   Hoje, o gato é sombra, muitos que vagam pela floresta de Varlagaris lembram. O espírito de Jamoros é a sombra que traz o inverno aos povos.
   E para os que conheceram o gato de contradições ficou a maior de todas as lições: sermos abnegados para com a sociedade, não nos torna tolos ou fracos, ao contrário, é o itinerário de maior sobriedade para a construção da própria individualidade.

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