segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Doutor Estranho - Resenha



O que motiva o ser humano a continuar vivo, a buscar dia após dia algum ideal ou satisfação pessoal? Para muitos, o simples fato de estar respirando é o que basta. Para outros, ir ao encontro do saber, entender a sua essência e canalizar algo de bom em tudo isso é uma caçada incessante.
O Doutor Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é um neurocirurgião que pretende deixar um legado para medicina e perpetuar seu nome para a história. Mas sua arrogância e ceticismo estão no meio do caminho, fazendo com que sua relação com as pessoas, incluindo a cirurgiã e interesse amoroso Christine Palmer (Rachel McAdams), não seja tão amistosa assim. Até uma tragédia pessoal mudar tudo. Logo após um acidente de carro, fica com as mãos incapacitadas de fazer quaisquer operações, e isso o deixa obcecado a procura de uma cura para aquela condição. Até ter notícia de um paciente que se recuperou rapidamente de uma vértebra fraturada, mesmo julgando ser impossível tal feito. Pela boca deste, soube de um grupo milenar em Kathmandu, Nepal, que seria capaz de rever sua enfermidade. Desde então, Stephen saiu em busca de uma solução para seu problema. Só não sabia que isso implicaria em deixar de lado sua arrogância e ceticismo, para que ele pudesse finalmente ser "liberto".


A descrição acima parece de um filme artístico típico de um Jodorowsky ou Bernado Bertolucci, mas não se engane, é mais uma produção da Marvel para os cinemas. Doutor Estranho é um blockbuster esperto, cheio de camadas e esconderijos, que vão se abrindo em leques e mandalas para a nossa apreciação. E o que é melhor: não é preciso ser um mestre em magia, ou ter contato com espiritualidade para sentir esta vibe no filme inteiro. Tudo é bem explicado e apresentado, mas sem abusar de diálogos exemplificativos (viu, Nolan?).


Benedict Cumberbatch entrega um Stephen Strange espetacular, que varia de temperamento com o passar de seus ensimentos espirituais. Tilda Swinton faz uma Anciã magnífica, sempre empregando ao personagem um ar de conhecimento além de nossas vãs compreensões, como se ela soubesse de tudo o que vai acontecer e estivesse conformada com este destino.


Outro ponto forte do filme são os efeitos visuais, que nos trás a tona uma verdadeira viagem lisérgica sem estarmos devidamente entorpecidos para isso. Percebe-se que um dos momentos foi inspirado em 2001 - Uma Odisseia no Espaço. Um show pirotécnico que pode garantir o primeiro Oscar na Marvel em uma categoria técnica.


Porém, o filme tem seus deslizes. Como em várias produções da Marvel Studio, há resoluções no meio da história pouco convincentes, tramas que se resolvem facilmente e até o encontro do nosso herói com o verdadeiro vilão do filme, coisa que não rende um desfecho convincente. Grandes atores como Mads Mikkelsen (que faz o vilão Kaecilius, um dos Mestres das Artes Misticas que rompe com a Anciã) é subaproveitado, e Chiwetel Ejiofor (que faz o assistente da Anciã Karl Mordo) é um mero coadjuvante, não justificando sua presença no filme. Apesar disso, eles até tentam entregar profundidade aos seus personagens, mas com um roteiro parco fica difícil tal tarefa.


Mas nada disso atrapalha essa jornada do herói ao seu destino final. "Doctor Strange" é uma caminhada tortuosa de um ser mesquinho e pouco amistoso até seu real destino. É a reflexão de que talvez o maior legado de um ser humano não seja aquele que se almeja com vigor deixar, e sim o que se faz diariamente para os demais sem se notar. Ponto para Marvel.




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